Assentamento Silvio Rodrigues, orgânico sem pedágios

Em um cenário de agricultores com a corda no pescoço, a transição agroecológica 

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Multiplica! – Assentamento Silvio Rodrigues, Alto Paraíso, GO
5º Banco de Multiplicação de Sementes

DSC_8062Na agricultura orgânica, a produtividade imediata por necessidade, procrastina o processo de transição para uma autonomia de sementes próprias e livres. É preocupante, cada vez mais se perdem as sementes tradicionais das famílias de agricultores e mais difícil o acesso a cultivares de boa procedência e qualidade.
Através da seleção, desde sempre agricultores desenvolveram variedades chamadas crioulas, melhorando por gerações estas sementes para se adaptarem às condições de solo e clima locais. Assim, fortalecendo as plantas, reduzindo o uso de fertilizantes e a dependência do mercado.

feira-alto-paraisoNo Alto Paraíso de Goiás, a famosa “Feira do Produtor” que acontece todos os sábados é o ponto de encontro dos mais diversos personagens plantadores, articuladores, artistas e visitantes curiosos. Além de uma imensa variedade gastronômica com opções para todas as dietas alimentares, tradicionalmente apresenta bancas dos agricultores com produtos da agricultura familiar da região.

DSC_7682Em 2014, o Multiplica! esteve desenvolvendo ações na região e teve a oportunidade de convidar todos os produtores que vendem na feira para uma vivência com mutirão de agrofloresta reunindo e integrando novos rurais e velhos plantadores no sitio Vitaparque. Facilitamos trocas de sementes e projeções com rodas de prosa, e a partir destas conversas pudemos constatar entre os agricultores, que apesar de utilizarem um sistema de adubação orgânica, a maioria ainda comprava sementes hibrídas mantendo esta dependência com a fonte genética, em muitos casos inclusive utilizavam o formato de plantio convencional, apenas com pequenos consórcios ou monoculturas orgânicas.

satyavansatNosso retorno a Chapada dos Veadeiros em 2015, nos colocou em contato com um personagem chave, Satyavan Sat, um incrível missionário da natureza, que há anos vem contribuindo na transição agroecológica de vários assentamentos, o que nos levou novamente a cruzar o caminho de nossos grandes plantadores do Assentamento Silvio Rodrigues. Desta vez descobrimos alguns guardiões dedicados como Mazão, Ivanilde, Gilberto e Virgílio que mostraram sua preocupação com as sementes crioulas. Assim encontramos a brecha para propor a co-criação de um banco de multiplicação de sementes no assentamento, com objetivo de intensificar em todos os plantadores o interesse na produção das sementes próprias.

DSC_8231Dona Osvaldina foi a anfitriã a abrigar em seu lote o berço genético que fortaleceria, neste grupo de agricultores, uma consciência do valor que as sementes tem para sua soberania. Senhora humilde, serena e lutadora já plantando e observando os ciclos há um bom tempo. Em sua horta vimos grande diversidade, florindo e pendoando, plantas de cultivares comprados, que na teoria deveriam ser estéreis ou muito pouco capazes de desenvolver boas sementes, mas que nas mãos de uma guardiã de essência podem ser melhoradas seletivamente a cada geração. Dona Osvaldina já não tinha acesso a sementes crioulas, no entanto sua intuição, observação e vontade de ser soberana foi encontrando formas de gravar história nestas sementes manipuladas. Algumas rúculas “de mercado”, conforme relatou Osvaldina, já estavam notavelmente mais fortes e adptadas em sua terceira geração vivendo ali com ela.

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DSC_7983Em mais uma vivência que juntou muita sabedoria e curiosidade, tivemos um processo construtivo na criação de um modelo de berço para multiplicação das sementes livres baseado nos princípios da cooperação entre espécies e formação regenerativa do solo. A participação foi bastante dinâmica durante os 2 dias de vivência, com a presença dos personagens já familiarizados e também novos rostos, já que o assentamento Silvio Rodrigues é muito extenso e alguns moradores apenas se conhecem. Entre mutirão e projeções, as prosas são o que mais fortalece a união dos assentados, quando os interesses pela preservação das nascentes e a preocupação com relação ao cerco de contaminação por transgênicos e agrotóxicos nas fronteiras se destacam entre tantos como fator sine qua non para o processo de regeneração de sua terra.

DSC_8129Outro legado da exploração uma vez praticada que ficou para o assentamento foram as “florestas” de monocultivos de eucalipto, uma vez atividade principal nesta área da Chapada dos Veadeiros. Este é um grave problema em alguns lotes, pois a remanescência de duas variedades destas exóticas dificultam muito no trabalho de agricultura sustentável e um verdadeiro reflorestamento para espécies nativas devido a sua rápida propagação descontrolada, forte enraizamento e esgotamento dos aquíferos. Em nosso sistema agroflorestal para o berço de sementes, nada melhor que criar solução a partir do problema e utilizar muita madeira, folhas e galhos de eucalipto como biomassa, já que este material dispõe de grande quantidade de N, P e K para iniciar a nutrição de nosso solo.
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DSC_8101Agroecologia, agricultura orgânica, permacultura, agricultura biológica, já são tantos rótulos, são tantos conceitos. Estas pessoas lutaram para conseguir uma terra para produzir alimento de forma saudável e conquistar sua autonomia. Aqui não há um selo a custa de pedágio, estas famílias vivem da terra, a respeitam e entregam aos consumidores o mesmo alimento saudável que plantam para elas mesmas.

Antigamente, uma agricultura era apenas agricultura, pois de qualquer maneira era orgânica.
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O sistema criado apresenta um berço para multiplicação de sementes, uma área para manter variedades que gerem biomassa para adubação e dois corredores com flores e ervas aromátias/medicinais.
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