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II Feira Nacional da Reforma Agrária

Com a teia da agroecologia unida por uma soberania alimentar, todos os consumidores são atraídos


Uma feira que cresce a cada edição (e esta é apenas a segunda), apontando novas perspectivas para a integração entre agricultores da reforma agrária, neo rurais e consumidores de diversas classes. Atraindo mais de 170 mil pessoas, a II Feira Nacional da Reforma Agraria ocorreu entre os dias 4 e 7 de maio de 2017 no Parque da Água Branca em São Paulo.


Oportunidade de encontros com lideranças, ícones nos movimentos de agroecologia e principalmente do contato direto com os verdadeiros produtores e geradores de alimentos orgânicos deste país. Mostrando que a luta pela reforma agrária esta diretamente atrelada a uma necessidade e busca de alimentação saudável.


Multiplica! esteve presente oferecendo variedades crioulas para novos e antigos guardiões.


Produtos, mudas, sementes, pratos típicos, medicinas naturais e curiosidades do campo e da natureza. Trazidos de todos os cantos do Brasil, apresentados por seus próprios produtores e mestres com carinho e motivação de quem vive no dia a dia esta troca com as plantas e o alimento, em louvor a mãe terra.


Conferências e palestras ministradas pelos agricultores empoderados das técnicas de manejo sustentável (como os Sistema Agroflorestais) que foram redescobertas e aprimoradas a partir de estudos de seu próprio conhecimento ancestral, desde sempre utilizados de forma intuitiva no campo dentro da agricultura familiar e anteriormente nas comunidades tradicionais.

O escritório de um guardião de sementes e a seleção do milho crioulo

Depois de uma colheita abundante, a partir de umas poucas sementes destas bem antigas de milho de pipoca, vem um delicado e satisfatório trabalho de observação e seleção, mostrando que o escritório de um guardião de sementes pode ser bastante intricado.

Em um de nossos encontros de troca de sementes tivemos a oportunidade de receber um punhado do milho de pipoca crioulo preservado por agricultores da região da Lapa, PR. A variedade, cuja mescla de cores era uma das características preservadas pelo guardião, nos chamou atenção para uma experiência: entre grãos vermelhos, pretos, roxos, amarelos, laranjas e dourados de variados tamanhos, separamos cuidadosamente apenas as sementes maiores e de cor preta, afim de comprovar a variabilidade genética deste exemplar. Sabemos que esta variabilidade é a riqueza de uma semente crioula tradicional e marca sua possibilidade de variar e retornar características, assim como preserva sua capacidade de adaptação e resistência às mudanças climaticas e intervenções naturais. Isto somente é possível com gerações de plantio, replantio, misturas no cruzamento e seleção de características; inestimável trabalho dos guardiões de sementes que vem sendo praticado ha mais de 9 mil anos e que ainda muitos desconhecem. Aliás, hoje com tais manipulacoes genéticas de “melhoramento” para fins comerciais, estas sementes são desvalorizadas ou até condenadas por sua rusticidade e despadronização de características impostas pelo mercado.

“Maiz” peruano
A mistura original do guardião

Enfim, sabendo tudo isso, levamos a campo nossa expêriencia. Semeamos apenas os grãos pretos selecionados para observar logo que características e cores esta semente pode nos retornar de sua memória. Fosse esta uma semente híbrida “melhorada”, onde os gens são isolados, devolveria apenas espigas com grãos pretos, todas praticamente do mesmo tamanho (obviamente, se utilizássemos corretamente o pacote de adubos e pesticidas recomendado pelo fabricante, do contrário, não acreditamos que nem uma colheita de boas espigas teríamos).
Ah, para seguir o teste de poder de nossa cobaia, ainda adicionamos uma nova variável tornando a posterior seleção ainda mais complicada e a prova de resistência deste milho mais desafiadora, então semeamos próximo a ele uma variedade de “maiz” peruano, das altas montanhas do Vale Sagrado. Hummm… vai que dá bom. Pela lógica genética, se nosso criolinho do Paraná, que já se mostra um durão para o frio, neste novo cruzamento não alterar suas características de pipoca, forma e cor (ou cores, veremos), ainda pode ganhar um precioso gen dos parentes andinos que venha a suportar temperaturas ainda mais baixas.

Chegou o momento, e debaixo daquela palha teríamos surpresas, no mínimo interessantes. Foram aproximadamente 50 plantas de 50 sementes, mostrando a que veio já desde a germinação, ou seja, nenhuma falhou. E assim nos rendeu 70 espigas, que se desenvolveram muito bem, mesmo sendo atormentadas e sufocadas por algumas variedades de feijões trepadores, os quais descuidamos em misturar no consórcio. Enfim, outro ótimo teste de resistência para nosso guerreiro.

Recordando que recebemos do guardião as sementes de milho de pipoca, de variadas cores, daquelas espigas finas e bem pontiagudas, plantamos somente da cor preta, selecionando entre todas, as maiores e claro, sempre finas e pontiagudas. Começamos a colher e abrir a palha e eis nossa comprovação: grãos vermelhos, amarelos, laranjas, pretos, muito pretos, dourados, misturados, grandes, pequenos, pontiagudos, redondos (ops… sabemos que esta característica de forma não é comum nos milhos de pipoca crioula) e algumas espigas bem maiores (também incomum nesta variedade), o que nos mostra também que alguém andou pulando a cerca da cordilheira na hora da copula.

Antes mesmo de iniciar nossa análise já observamos a riqueza genética contida numa única semente com a dominância preta, que pode nos retornar novamente todas as cores das sementes anteriormente misturadas pelo guardião. Como a seleção de uma característica específica ou a variação dela pode levar anos de cruzamentos e seleção, isso nos prova que esta semente tem umas tantas gerações sendo preservada com carinho e enriquecendo sua genética.

Num trabalho mais minucioso estivemos selecionando entre as mais bem desenvolvidas, com as variadas cores, todas no formato de espiga fina e grão pontiagudo, característica comum aos milhos de pipoca crioulo. Bem, estas seriam nossas “avozinhas” que recuperamos da genética tradicional de nosso doador, além disso, deixamos gravado um pouco da nossa historia de seleção, e com sorte podemos ter agregado aquele “poncho” peruano, característica que só conheceremos na próxima geada.

Logo vem a parte difícil. Toda aquela mistura vinda do cruzamento inter-latino. Tem espigas finas com grãos redondos, grandes com grãos pontiagudos, grandes com grãos redondos, coloridas misturadas, enfim para estas espigas acreditamos que se manteve mais forte a genética do milho peruano. Agora para aproveitar estes novos descendentes só nos resta um teste a fazer: de pipocabilidade. Ou seja, debulhar e estourar na panela, por separadado cada variedade manifestada diferente dos originais e com nova característica que nos interesse preservar, assim veremos se ainda temos milhos de pipoca, desta vez com novas formas e tamanhos.

Com esperado, nossos testes mostram alguns fracassos na pipocabilidade, mas também sucesso na “criação” de um novo formato para o milho de pipoca, no caso de duas espigas grandes com grãos arredondados, amarelos e manchados brilhantes.

Ficamos com algumas misturas interessantes que ainda fazem pipoca, mas também perdemos este gen em outras que descartamos. Por sorte nossas espigas selecionadas com características das originais mantiveram a pipocabilidade no testes.

Experiência que recomendo aos plantadores mais atrevidos, não somente para o milho de pipoca mas também para outras varidades e espécies. Como exemplo temos um guardião em Planaltina, DF que foi atento em produzir novas sementes a partir de um punhadinho de uma variedade de alface que supostamente se definia como “4 estações”, e de ali até sua terceira geração pode observar e selecionar mais 5 diferentes variedades em seus cruzamentos, graças a grande variabilidade genética da matriz crioula que lhe doamos.

Aguardamos as próximas colheitas!

Uma aldeia para o futuro, resgate da agricultura tradicional

As comunidades tradicionais só resistem na sociedade, fortalecendo sua tradição. Um povo é sua cultura.

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Multiplica! e Raiz das Imagens – Aldeia Kalipety, Parelheiros, SP

6º Banco de Multiplicação de Sementes

IMG_2678O nome da aldeia, Kalipety. Na lingua Guarani, “ty” significa ‘muito de alguma coisa’, e “kalipe” é como chamam o eucalipto. Este foi o cultivo que o povo Guarani Mbyá na região de Parelheiros, SP, herdou na retomada de seu território, e realmente é algo que se encontra em grande quantidade nestas terras.
O eucalipto não faz parte da cultura Guarani, nem mesmo deste bioma, mas desde que iniciaram esta aldeia nova, localizada dentro da TI Tenondé-Porã, o povo indígena agradece esta árvore que vem sendo usada com sabedoria para a construção das novas casas. Assim, conhecendo a problemática de degradação causada ao solo devido uma grande quantidade desta cultura, uma consciente retirada de eucaliptos vem dando lugar nas matas ao reflorestamento de árvores nativas da Mata Atlântica além de algumas espécies frutíferas. Portanto é importante lembrar que não existe planta “má”, o grande problema é a forma que domesticamos e o desequilíbrio que causamos com isso.

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Uma liderança mulher, jovem e preocupada com a educação

MVI_2491000Com uma incrível consciência ambiental e foco na importância em fortalecer a tradição Guarani, há dois anos, a jovem liderança e educadora Jera Giselda decidiu que deixaria a aldeia onde nasceu, Tenondé Porã, para encontrar o lugar ideal para firmar um trabalho de resgate cultural e garantir a autonomia de seu povo. A antiga Tenondé Porã, já foi um lugar com forte desempenho da agricultura tradicional no início da comunidade que já tem mais de 40 anos. Hoje muito mudou e a população da aldeia cresceu, no entanto a terra demarcada continua a mesma, o que tornou quase impraticável o plantio até mesmo para subsistência.

DSC_0202Certo dia, visitando o velho Antônio, parente da aldeia Rio Silveira no litoral Sul, Jera recebeu das mãos deste guardião uma batata-doce que garantiu ser tradicional do seu povo, chamada “jety-karau guaxu”, e junto a missão de plantá-la e preservá-la. Em pouco tempo seu pequeno quintal em Tenondé exibia já as ramas e folhas da “jety miri” (batata sagrada), como carinhosamente era chamada pela nova guardiã, e não demorou até aparecer em suas mãos diferentes variedades de batata-doce de outros guardiões desta aldeia e outros lugares do Brasil. Foi assim que Jera percebeu que sua missão seria descobrir e resgatar todas as tradicionais batatas-doce do povo Guarani, seu quintal ficou pequeno, e com isso chegava o momento de mudar para um lugar onde tivesse muito mais espaço para esta multiplicação.

Parceria pela tradição e biodiversidade

DSC_0245Resistência! No município de São Paulo, a terra indígena Guarani, com 15.969 hectares identificados em 1983, apenas 26 hectares da Aldeia Tendondé-Porã foram homologados e demarcados. Nesta delicada situação, começou este incrível trabalho na Aldeia Kalipety, na luta pela autonomia, praticada através do resgate da agricultura Guaraní. Entre o milho tradicional (Avaxi), a Mandioca (Manji’o) se destacou o plantio da batata sagrada (Jety Miri). Em apenas dois anos, trazidas de feiras de sementes, velhos guardiões ou mesmo por cruzamentos, Jera já possui 6 variedades sendo multiplicadas. E foi através desta resistência cultural e pela soberania alimentar que a parceria entre Multiplica! e Raiz das Imagens chegou até este lugar.

IMG_2733Giselda, como é chamada em seu nome “jurua” (não-indígena), bastante conhecida pelo carisma e influência como liderança formadora de opinião na luta pelos direitos indígenas, é frequentemente buscada por jovens estudantes e pesquisadores para entrevistas. Também conhecida por vídeos onde demonstra ser uma incrível oradora, expressando-se não só em Guarani, mas perfeitamente em Português. Assim encontramos Jera, que ficou muito animada com nossa simples proposta. Oferecemos apoio para um grande mutirão na criação de um espaço na aldeia para um berço de multiplicação das sementes tradicionais e crioulas, além de uma feira de sementes para levar novas variedades e ampliar a diversidade de alimentos cultivados. Quase sem pensar, a guerreira e plantadora respondeu: Sim, precisamos muito!

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Entre as 20 famílias que vivem na aldeia, muitos tem a abertura para acrescentar novos alimentos em sua dieta, garantindo assim uma possível autonomia em uma realidade de grande dependência de mercado. Esta é a revolução agroecológica que vem se formando entre as comunidades indígenas conscientes na luta por uma integração cultural saudável e harmônica, sabendo aproveitar e aceitar apenas o que é bom na cultura do não-indígena. Desta forma, plantando e incluindo mais cultivares, como a cenoura, o arroz integral e o gergelim, por exemplo, é bem provável que logo menos açúcar, farinha branca e óleo precisará ser comprado.

MVI_2250Foram 10 dias de intenso trabalho na terra, troca de conhecimentos e reflexões sobre o resgate da cultura Guarani. Como atividade de força maior, organizamos juntos em meio a este período de mão-na-massa, uma vivência de 4 dias, integrando as aldeias Tenondé-Porã, Kurukutu, Kalipety e agricultores da região de Parelheiros, além de alguns especiais convidados “juruas” vindos São Paulo para participar nos mutirões.

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IMG_2290A proposta feita pelo Multiplica! foi aceita e desenvolvida junto à comunidade para a implementação de um espaço integrado com um banco de multiplicação de sementes (novos cultivares) na terra, uma área de produção para as culturas tradicionais como a batata e o milho, uma linha de SAF com banana e mamão em círculos de bananeira e uma zona de adubação verde para manejo e incorporação nos canteiros, além de uma composteira/minhocário no centro. A todo este sistema chamamos “Berço de Abundância”.

IMG_2035Em meio a uma área onde as matas apresentam um solo ácido e árido por conta das quase monoculturas de eucalipto firmadas há alguns anos, não há outra saída que não seja primeiramente “plantar solo”. Este foi o desafio no trabalho de agricultura regenerativa, empregando 3 diferentes técnicas baseadas no sistema agroflorestal e biointensivo.

MVI_2218Contando com os supostos “inimigos” como maiores aliados, os próprios eucaliptos foram utilizados na maior parte da biomassa e adubação verde e o restante da matéria orgânica entre podas de nativas e folhas das matas, além de um empurrãozinho de crotalárias e gramíneas que já haviam plantado no local há alguns meses para início de recuperação do solo. Tudo isso não podia deixar de ser oferecido para decomposição aos nossos queridos microorganismos eficientes que foram coletados na própria mata da aldeia próxima a um córrego saudável.

A memória dos mais velhos é o único livro

MVI_2466Como parte deste processo, não poderia faltar o compartilhamento de conhecimentos do plantio e colheita da batata-doce, onde Jera orgulhosa mostrou aos “juruas” tudo que aprendeu com seu mestre plantador Pedro Vicente, que também esteve presente para observar novas técnicas e brindar-nos com algumas sábias palavras. O ilustre plantador se dirige principalmente aos jovens indígenas, lembrando e lamentando que atualmente estão perdendo o interesse pela agricultura tradicional e pela cultura Guarani em geral, o que traz a tona sua principal preocupação: “E quando os velhos como eu não estiverem mais aqui, quem vai continuar nossa tradição?”
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DSC_0089E na celebração da feira de sementes, como forma de retribuir o fruto da sabedoria do velho Pedro e de outros guardiões que lhe estiveram ensinando, Jera Giselda compartilhou com todos em um grande almoço uma parte de sua primeira grande colheita da valiosa (e deliciosa) batata-roxa (jety-karaũ).

Clip0106Para valorizar e incentivar este lindo resgate do alimento tradicional, o Raiz das Imagens esteve acompanhando e registrando em parceria com alguns jovens da aldeia que se interessaram pela câmera e nos enriquecem assim com sua visão dos plantios, colheitas e descobertas destas batata-doce em um pequeno vídeo retrato audiovisual para compartilhar e motivar outras comunidades, além de divulgar a riqueza desta cultura.

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Assim foi a vivência, entre 4 dias de mutirão com diversas participações e outros 6 dias de
trabalho na preparação e finalização do berço que contou com a dedicação dos moradores da aldeia, Evandro, Jera, Aline, Kátia, Pedrinho, Verá, Tiago, Zé, e vários outros não menos importantes.

DSC_0107Também foram realizadas outras atividades como a Feira de troca de sementes, brincadeiras com as crianças no tecido acrobático, descobrindo milhares de funções, pintura com tintas naturais, projeções de filmes de agroecologia e vídeos de outros povos, além de algumas noites de reza, cantos e dança na “Opy” (casa de reza). A união e comunhão sempre presente na casa grande da aldeia, onde todos os dias nos reunimos e realizamos as refeições, compartilhando o alimento e as receitas guarani e “jurua”, sempre em cooperação e harmonia, se destacaram o “Xipá” (pão tradicional, adaptado da mandioca à farinha e frito), o Bodiapé (mesma receita feita diretamente na brasa) e muita, muita batata-doce roxa.

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Algumas das variedades de batata-doce tradicional do povo Guarani (marcadas as que foram identificadas pelo guardião Pedro Vicente como ainda presentes na região e algumas já resgatadas na aldeia Kalipety):
jety-andai – Certa batata-doce amarela por dentro e vermelha por fora, com sabor de abóbora
jety-apiju – Certa batata-doce
jety-ava – Certa batata-doce branca por dentro e vermelha por fora, não muito doce, se não deixá-la ao sol por vários dias
jety-aypi – Certa batata-doce cuja casca contém manchas escuras, e que é branca por dentro
jety ju – Certa batata-doce amarela por dentro e vermelha por fora
jety-kara – Certa batata-doce
jety-kara’i – Certa batata-doce semelhante à última referida, mas menor
jety-karaũ – Certa batata-doce preta por dentro e por fora
jety-karau guaxu
jety-mbyku ra’yĩ – Certa batata-doce vermelha, bem pequena; batatinha-de-gambá
jety-piary – Certa batata-doce não muito doce, de cor bege por dentro
jety pire pytã va’e – Certa batata-doce com casca roxa
jety pytã – Certa batata-doce com manchas roxas por dentro e por fora
jety-raxi, jety-raxy – Certa batata-doce
jety-remborike – Certa batata-doce
jety xiĩ guaxu – Certa batata-doce branca por fora e por dentro
jety xiĩ’i – Certa batata-doce semelhante à última referida, mas menor

DSC_0077Em conversa com Jera, nos declara que tem um sonho para esta aldeia. Que se torne um modelo de referência nas sementes tradicionais e crioulas, onde todos possam vir recuperar e levar sementes multiplicadas com muito carinho. Um berço de batatas, milho, mandioca, e todos os alimentos que os guardiões vieram trazendo desde sempre como viajantes do tempo. Uma aldeia rica de vida e aberta à diversidade, onde a base do trabalho seja a agricultura e que estes resultados possam trazer uma verdadeira autonomia algum dia.

DSC_0224-4Trazemos da aldeia Kalipety muito conhecimento e a inspiração de um povo extremamente alegre e divertido, que trabalha duro enquanto conta piadas, consagrando seu inseparável “pety’guá” (cachimbo sagrado). Deixamos um pouco da experiência que adquirimos com outros guardiões tão importantes de outros lugares. Ali na terra e dentro de cada um que participou fica plantada mais uma semente da integração pela sociobiodiversidade.

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Pinhão não se colhe verde

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Atenção para a época correta de colheita!
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Foto: Rita Barreto

Uma prática ainda muito comum hoje em dia é a derrubada antecipada (março/abril) de pinhas imaturas para comercialização,  sem permitir a dispersão natural das sementes.
O repovoamento das Araucárias está bastante comprometido pela extração inconsciente de pinhão e madeira.

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Foto: Epagri

Resta pouco (1 a 2%) do que um dia foi a maior floresta do sul do Brasil.
Sua origem remonta a mais de 200 milhões de anos, quando sua população se disseminava pelo Nordeste brasileiro.
A Araucária [Araucaria angustifolia] é a espécie arbórea dominante da Floresta das araucárias [ombrófila mista], ocorrendo majoritariamente na região Sul do Brasil.
Hoje existe um grande risco de extinção da espécie, sendo esta, primordial para a conservação da floresta de araucárias.

 

infográfico: Vania Pierozan
infográfico: Vania Pierozan

A maturação da pinha e queda natural, que ocorre a partir do dia 15 de abril, é fundamental para a dispersão das sementes que alimentam a fauna no inverno, possibilitando a dispersão das sementes pelos mesmos, sendo assim possível a germinação e proliferação desta espécie. É recomendado ainda  que o início da colheita do pinhão seja a partir de maio, já que as sementes iniciam a dispersão e vão caindo pouco a pouco, permitindo assim que muitas possam “se perder” na terra antes da queda da pinha.

Antes do dia 15 de abril, colher ou comprar pinhão prejudica as Araucárias.

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Foto do início: reprodução/ Blog Araucárias e Campos
Fontes:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Arauc%C3%A1ria
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/ambiente/grito-floresta-araucarias-613686.shtml

Assentamento Silvio Rodrigues, orgânico sem pedágios

Em um cenário de agricultores com a corda no pescoço, a transição agroecológica 

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Multiplica! – Assentamento Silvio Rodrigues, Alto Paraíso, GO
5º Banco de Multiplicação de Sementes

DSC_8062Na agricultura orgânica, a produtividade imediata por necessidade, procrastina o processo de transição para uma autonomia de sementes próprias e livres. É preocupante, cada vez mais se perdem as sementes tradicionais das famílias de agricultores e mais difícil o acesso a cultivares de boa procedência e qualidade.
Através da seleção, desde sempre agricultores desenvolveram variedades chamadas crioulas, melhorando por gerações estas sementes para se adaptarem às condições de solo e clima locais. Assim, fortalecendo as plantas, reduzindo o uso de fertilizantes e a dependência do mercado.

feira-alto-paraisoNo Alto Paraíso de Goiás, a famosa “Feira do Produtor” que acontece todos os sábados é o ponto de encontro dos mais diversos personagens plantadores, articuladores, artistas e visitantes curiosos. Além de uma imensa variedade gastronômica com opções para todas as dietas alimentares, tradicionalmente apresenta bancas dos agricultores com produtos da agricultura familiar da região.

DSC_7682Em 2014, o Multiplica! esteve desenvolvendo ações na região e teve a oportunidade de convidar todos os produtores que vendem na feira para uma vivência com mutirão de agrofloresta reunindo e integrando novos rurais e velhos plantadores no sitio Vitaparque. Facilitamos trocas de sementes e projeções com rodas de prosa, e a partir destas conversas pudemos constatar entre os agricultores, que apesar de utilizarem um sistema de adubação orgânica, a maioria ainda comprava sementes hibrídas mantendo esta dependência com a fonte genética, em muitos casos inclusive utilizavam o formato de plantio convencional, apenas com pequenos consórcios ou monoculturas orgânicas.

satyavansatNosso retorno a Chapada dos Veadeiros em 2015, nos colocou em contato com um personagem chave, Satyavan Sat, um incrível missionário da natureza, que há anos vem contribuindo na transição agroecológica de vários assentamentos, o que nos levou novamente a cruzar o caminho de nossos grandes plantadores do Assentamento Silvio Rodrigues. Desta vez descobrimos alguns guardiões dedicados como Mazão, Ivanilde, Gilberto e Virgílio que mostraram sua preocupação com as sementes crioulas. Assim encontramos a brecha para propor a co-criação de um banco de multiplicação de sementes no assentamento, com objetivo de intensificar em todos os plantadores o interesse na produção das sementes próprias.

DSC_8231Dona Osvaldina foi a anfitriã a abrigar em seu lote o berço genético que fortaleceria, neste grupo de agricultores, uma consciência do valor que as sementes tem para sua soberania. Senhora humilde, serena e lutadora já plantando e observando os ciclos há um bom tempo. Em sua horta vimos grande diversidade, florindo e pendoando, plantas de cultivares comprados, que na teoria deveriam ser estéreis ou muito pouco capazes de desenvolver boas sementes, mas que nas mãos de uma guardiã de essência podem ser melhoradas seletivamente a cada geração. Dona Osvaldina já não tinha acesso a sementes crioulas, no entanto sua intuição, observação e vontade de ser soberana foi encontrando formas de gravar história nestas sementes manipuladas. Algumas rúculas “de mercado”, conforme relatou Osvaldina, já estavam notavelmente mais fortes e adptadas em sua terceira geração vivendo ali com ela.

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DSC_7983Em mais uma vivência que juntou muita sabedoria e curiosidade, tivemos um processo construtivo na criação de um modelo de berço para multiplicação das sementes livres baseado nos princípios da cooperação entre espécies e formação regenerativa do solo. A participação foi bastante dinâmica durante os 2 dias de vivência, com a presença dos personagens já familiarizados e também novos rostos, já que o assentamento Silvio Rodrigues é muito extenso e alguns moradores apenas se conhecem. Entre mutirão e projeções, as prosas são o que mais fortalece a união dos assentados, quando os interesses pela preservação das nascentes e a preocupação com relação ao cerco de contaminação por transgênicos e agrotóxicos nas fronteiras se destacam entre tantos como fator sine qua non para o processo de regeneração de sua terra.

DSC_8129Outro legado da exploração uma vez praticada que ficou para o assentamento foram as “florestas” de monocultivos de eucalipto, uma vez atividade principal nesta área da Chapada dos Veadeiros. Este é um grave problema em alguns lotes, pois a remanescência de duas variedades destas exóticas dificultam muito no trabalho de agricultura sustentável e um verdadeiro reflorestamento para espécies nativas devido a sua rápida propagação descontrolada, forte enraizamento e esgotamento dos aquíferos. Em nosso sistema agroflorestal para o berço de sementes, nada melhor que criar solução a partir do problema e utilizar muita madeira, folhas e galhos de eucalipto como biomassa, já que este material dispõe de grande quantidade de N, P e K para iniciar a nutrição de nosso solo.
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DSC_8101Agroecologia, agricultura orgânica, permacultura, agricultura biológica, já são tantos rótulos, são tantos conceitos. Estas pessoas lutaram para conseguir uma terra para produzir alimento de forma saudável e conquistar sua autonomia. Aqui não há um selo a custa de pedágio, estas famílias vivem da terra, a respeitam e entregam aos consumidores o mesmo alimento saudável que plantam para elas mesmas.

Antigamente, uma agricultura era apenas agricultura, pois de qualquer maneira era orgânica.
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O sistema criado apresenta um berço para multiplicação de sementes, uma área para manter variedades que gerem biomassa para adubação e dois corredores com flores e ervas aromátias/medicinais.
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Casas subterrâneas do povo Kaingang

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Os kaingang, uma das 305 atuais etnias do Brasil, já habitavam o Planalto Meridional Brasileiro três mil anos antes da chegada dos europeus. Estes povos eram conhecidos como Proto-Kaingang, povos da Tradição Taquara ou Povo das Casas Subterrâneas.

Screen Shot 2016-03-21 at 2.49.01 PMA arqueologia do sul do Brasil tem dado atenção, desde a década de 60, a um tipo muito especial de antiga ocupação humana encontrada em muitos pontos de planalto nos estados de São Paulo, Paraná e, principalmente, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de alguns achados semelhantes próximos ao litoral, no sul de Santa Catarina.

Para se proteger do inverno rigoroso que castiga as elevadas regiões do Sul do Brasil, chamados Campos de Cima da Serra, construíam suas casas de forma enterrada, mantendo-as, assim, protegidas dos ventos fortes e gelados que cortam o planalto.

img4Por vezes, as paredes eram compactadas com argila mais fina, resultando em uma camada de revestimento. O teto era apoiado sobre estacas: uma estaca principal no centro, que descia até o chão da casa, e estacas laterais, que irradiavam do mastro central e se apoiavam na superfície do solo, na parte externa. Este teto ficava pouco acima do nível do terreno, garantindo ventilação, iluminação e trânsito.

Screen Shot 2016-02-18 at 9.46.07 PMTrata-se de verdadeiras casas circulares, escavadas na terra: em alguns casos, em

rocha basáltica, em outros, em basalto composto ou rocha mole de arenito. Suas dimensões são variáveis; os registros mais importantes revelam estruturas com tamanhos médios entre 2 e 13 metros de diâmetro com profundidade média de 2,5 a 5 metros de altura, havendo casos registrados de 4 e até 6 metros de profundidade. Segundo a descrição de vários pesquisadores, com base nas casas melhor conservadas, sobre a cova circular que delimitava a casa, erguia-se uma cobertura de folhas sustentada em uma armação de madeira, em parte fixada na base da casa, e em parte fixada nas bordas laterais da cova, inclusive com o auxílio de pedras.

Em algumas casas os arqueólogos mencionam ter encontrado um revestimento de piso e, em outras, revestimento em pedra nas paredes ou parte delas.
Ainda que, em um número significativo de sítios arqueológicos se encontrem casas subterrâneas isoladas, é comum encontrar-se conjuntos dessas casas, seja formando
pares, seja formando verdadeiras aldeias de mais de 5 casas, sendo vários os

agrupamentos entre 8 e 10 delas, e havendo, mesmo, casos de mais de 20 casas em um mesmo lugar. O espaçamento entre essas casas varia de 1 a 10 metros, em média.

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Ainda que alguns arqueólogos tenham sugerido que as casas subterrâneas não teriam sido, de fato, casas de habitação, mas apenas centros cerimoniais, a posição mais comum e sustentável indica que realmente essas estruturas eram a residências dos grupos humanos que as construíram. O arqueólogo André Prous também descarta a hipótese de que as casas maiores fossem apenas centros cerimoniais, enquanto as menores seriam de moradia, uma vez que, com freqüência, as casas maiores ocorrem isoladas ou estão presentes justamente nos menores conjuntos de casas subterrâneas.
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É importante, porém, observar-se a época em que as casas subterrâneas foram construídas e habitadas, para pensarmos na relação delas com outras formas de habitação antigas dos Kaingang. A arqueologia brasileira tem relacionado as casas subterrâneas com o que convencionou chamar de “tradição Taquara-Itararé”. Segundo Prous, para essa tradição “até há pouco, as datações mais antigas eram

exclusivamente do Rio Grande do Sul, entre o primeiro e o sexto século de nossa era.

Várias outras obtidas para o mesmo estado, Argentina e Paraná eram do século XIV, e duas do início do período histórico. Recentemente, datações de 475 AD (fase Candoi) e 500 AD na Argentina vieram mostrar que a cultura das casas subterrâneas desenvolveu-se em diversas regiões, grosso modo, na mesma época, e não se pode descartar a possibilidade de aparecerem, com as novas pesquisas, datações tão antigas quanto a, isolada por enquanto, de 140 AD para a fase Guatambu, cujo término foi datado de 1790 AD”.

Bioconstrução para aprender e aprofundar

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Uma ótima cartilha do IAB para qualquer pessoa que queira aprofundar seus conhecimentos acerca da bioconstrução e também para quem deseja iniciar uma obra sustentável e não sabe por onde começar. Além de ter menos impactos ambientais, este tipo de construção custa muito menos do que as tradicionais.

Técnicas de bioconstrução de forma didática e bem ilustrada. Recomendado!
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Baixe aqui

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Impactos dos agrotóxicos na saúde

“A obrigação de suportar nos dá o direito de saber” (Jean Rostand)

Leitura fundamental pela vida da sua família e do planeta, o dossiê da ABRASCO na campanha contra os agrotóxicos
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Baixe: Dossie Abrasco 2015

A dúvida é se a civilização pode
mesmo travar esta guerra contra
a vida sem se destruir e sem perder
o direito de se chamar de civilizada.
Rachel Carson
Primavera Silenciosa, 1962

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Ciência e religião, lado a lado pela cura do planeta

O físico Fritjof Capra e o Papa Francisco dialogam em seus discursos quando dizem que a educação ambiental é responsabilidade de todos nós e disso depende a sobrevivência da humanidade.

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Em tempos de terceira guerra mundial, as discórdias por religião e disputas por poder estão levando a uma cegueira generalizada na exploração de recursos, onde o crescimento econômico que leva ao suposto progresso vai deixando uma pegada tão grande e em tão pouco tempo, que já todos os limites máximos de exploração do planeta estão sendo alcançados.

ALFABETIZAÇÃO ECOLÓGICA

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foto: Revista Ecológica

No Congresso Internacional de Sustentabilidade para Pequenos Negócios (Ciclos), realizado em julho de 2015 em Cuiabá, no Mato Grosso, o PhD em física e escritor austríaco Fritjof Capra fala sobre um “pensamento sistêmico”, baseado na interdependência dos sistemas vivos, no qual ele inclui as sociedades urbanas e os ecossistemas.

Segundo Capra: “Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá de nossa alfabetização ecológica”, destacou o físico. Ser ecologicamente alfabetizado (ecoliterate) significa entender os princípios básicos da ecologia que os ecossistemas desenvolveram para manter a ‘teia da vida’. O grande desafio de nossa época é construir e nutrir comunidades sustentáveis. Os maiores problemas de nossa era: mudanças climáticas, pobreza, energia, água, estão conectados, são interdependentes. Suas soluções também”.

A fim de reverter o quadro atual do planeta, deve haver uma mudança de paradigmas, baseada em um “todo integrado”, tal qual um conjunto de sistemas interconectados, ao invés de uma coleção de partes dissociadas, diz o físico.

A menção e elogio de Capra à recente Encíclica “Laudato Si” (“Louvado Sejas”) do Papa Francisco, a primeira feita por um papa sobre questões ambientais, mostra esta sincronicidade de um “consenso científico muito consistente”.

O Papa afirma que é necessário ‘redefinir nossa visão de progresso’. Nem todo crescimento é bom, pois pode, por exemplo, se valer de exploração excessiva de recursos naturais, combustíveis fósseis e desigualdade de renda”. Na concepção de Capra, o Papa Francisco reconheceu a interdependência da natureza em sua Encíclica, “mas nossos políticos não conseguem conectar os pontos”.

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O físico, escritor e ativista ambiental ainda observou que um mundo mais sustentável passa por investimentos na agroecologia, arquitetura sustentável e energias renováveis.

NOSSA CASA COMUM
A mensagem central da encíclica “Laudato Si” (“Louvado Sejas”), a primeira do papado de Francisco produzida integralmente por ele, é uma frase repetida três vezes ao longo de suas mais de 190 páginas: “tudo está conectado”. O ser humano não está dissociado da Terra ou da natureza, eles são partes de um mesmo todo. Portanto, destruir a natureza equivale a destruir o homem. E destruir o homem, para os católicos, é pecado. Da mesma forma, não é possível falar em proteção ambiental sem que esta envolva também a proteção ao ser humano, em especial os mais pobres e vulneráveis.

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foto: EcoD

Esse raciocínio, que o papa chama de “ecologia integral”, permeia toda a construção da carta encíclica, tanto do ponto de vista da argumentação religiosa quanto das prescrições políticas – que Francisco faz num nível de detalhe assombroso, como quando critica a incapacidade das conferências internacionais de responder à crise climática, sugere uma saída gradual dos combustíveis fósseis e até mesmo propõe mudanças no modelo atual de licenciamento ambiental.

DSC_8109“A relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, a convicção de que tudo está estreitamente interligado no mundo, a crítica do paradigma que deriva da tecnologia, a busca de outras maneiras de entender a economia e o progresso, o valor próprio de cada criatura, o sentido humano da ecologia, a grave responsabilidade da política, a cultura do descartável e a proposta de um novo estilo de vida são os eixos desta encíclica, inspirada na sensibilidade ecológica de Francisco de Assis”

UM URGENTE APELO  À PRESERVAÇÃO DA TERRA E DA VIDA
Pouca coisa na agenda socioambiental parece ter escapado à análise de Sua Santidade: além do clima, Francisco pontifica sobre proteção dos oceanos, poluição da água, espécies ameaçadas, florestas e povos indígenas. Em relação a todos esses temas, as principais críticas recaem sobre os países ricos (a expressão “produção e consumo” aparece cinco vezes no texto), que são chamados a compensar os pobres pela degradação. Mas os países em desenvolvimento são também exortados a examinar o “superconsumo” de suas classes abastadas e a não repetir a história dos ricos durante seu desenvolvimento.
Em vários pontos da encíclica o papa entra “con gioia”, como dizem os italianos, em campos minados. Defende abertamente, por exemplo, uma ideia ainda maldita nos círculos econômicos, a de que as sociedades abastadas precisarão “decrescer” para que haja recursos para os pobres se desenvolverem.

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Em sua palestra Fritjof Capra fala de princípios ecológios básicos que se repetem de várias formas, mas dificilmente se aplicam. Afirma que uma comunidade sustentável tem de ser projetada de uma forma que não interfira na maneira natural de como a natureza sustenta a vida. A agricultura orgânica significa contribuir na luta contra as mudanças climáticas, pois o solo é rico em substâncias vivas e os alimentos orgânicos têm efeito positivo na saúde das pessoas.

A alfabetização ecológica tem que se tornar uma competência crítica para políticos, empresários, indústria, universidade, todos os níveis. É preciso compreender os princípios básicos da ecologia e aplica-los.”

[fontes: Revista Ecológica,  EcoD, OC]

Plante SOLO e os frutos virão!

Somos apenas mais um, na harmonia da natureza

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Agricultores com foco na produção sempre manifestam preocupação e interesse na forma de adubar as plantas, na técnica de plantio, na “proteção” e “combate” às “pragas”. Isso tudo é intrínseco ao que chamamos agricultura, seja ela convencional ou agroecológica.

A criação das culturas intensivas pela escassez de recursos após a 2ª guerra, para produzir mais em menores espaços, tornou a agropecuária uma prática de exploração desregrada. Visando não só a produção máxima imediata, mas acima de tudo o lucro, sempre criando “soluções” para os problemas causados pela própria intervenção inadequada.

3029705646_29f8772fdbO grande problema de interagir com a natureza por interesse capital não é apenas o desmatamento, a água ou a modificação genética, falamos da consequência que tudo isso está causando ao nosso elemento primordial: o solo.

Estamos destruindo não somente as sementes, a biodiversidade, as florestas ou os povos tradicionais, é nossa base de vida que está secando, morrendo e sofrendo. O solo é o berço de vida para uma infinidade de macro e microorganismos que se relacionam, se complementam e mantém a harmonia no todo do planeta.
Desmatamento de florestas e sub-biomas inteiros que mantinham uma fauna microbiótica que alimenta o solo, monoculturas de plantas que retiram e devolvem sempre os mesmos nutrientes da terra, pesticidas que matam não só as “pragas”, mas milhares de insetos, fungos e bactérias fundamentais para a manutenção e reciclagem desta placenta que propicia o desenvolvimento dos vegetais e animais.

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DSC_8088Constantemente os agricultores se perguntam: o que usar para adubar? o esterco é o melhor para uma produção orgânica? como evitar as pragas?… calcário, npk, biofertilizantes, etc…
Os biomas e as espécies coexistem sem nossa interferência no planeta há milhares de anos, a agricultura surgiu há aproximadamente 10 mil anos, e em apenas 100 anos de monoculturas temos 50% menos da biodiversidade.

Assim, se queremos mesmo plantas saudáveis e cultivos sustentáveis, precisamos de tempo e observação, por isso acreditamos que a única interação necessária com a natureza é devolver o que estivemos explorando durante este tempo. Aproveite os resíduos orgânicos, utilize o composto, cubra a terra, crie sombra, deixe plantas “daninhas” iniciarem os nichos, coloque sementes na terra sem espectativa, plante adubação verde, ame os microorganismos… Plante SOLO e os frutos virão!

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Em uma experiência recente, observamos na prática que os lugares onde interagimos ou plantamos só necessitam que cuidemos o solo. Há 1 ano em um terreno no qual regularmente viemos cuidando o solo, devolvemos microorganismos, protegemos com cobertura e criamos pequenos nichos e microambientes. Sempre plantamos intencionalmente sementes que muitas vezes se desenvolveram outras não. Atualmente, vimos a germinação espontânea de muitas plantas de tomate em diversos lugares do terreno. Sendo que este ano plantamos apenas uma variedade em um único lugar, é “normal” que “apareçam” 8 diferentes variedades espalhadas por todo o terreno? Não. Mas o que observamos é que depois de 1 ano sem cavar, utilizar insumos externos ou revirar o solo, a fauna macro e microbiótica aumentou, e ultimamente, todas as manhãs temos visitas de pássaros que passeiam saltitantes caçando insetos e vermes que se desenvolveram nesta terra. Eis que para nossa surpresa, uma quantidade enorme de plantas e frutos que não plantamos estão chegando para viver neste lugar.

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