Comunidade Quilombo Fazenda de Picinguaba

Cada Quilombo é um mundo… Toda tradição perdida é o enterro de um pedaço de nossa história.

Comunidade Quilombo Fazenda de Picinguaba (Ubatuba, SP)

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Chegamos sem conhecer nem pretender, nosso cartão de visita são as sementes.
Na pequena estrada que leva a fazenda do quilombo, oferecemos carona para 3 crianças que nos guiam até a Casa de Farinha, lugar que se tornou um espaço de encontro e aberto a visitantes curiosos atraídos pelas cachoeiras e produtos da comunidade. Ali está sentado com seu cajado o anfitrião, que recebe as pessoas com suas histórias e cuida do casarão.
Zé Pedro se levanta ao ver-nos chegar trazendo os netos de Mariazinha e logo percebe que não viemos apenas bisbilhotar e explorar seus recursos naturais, assim, depois de uma pequena conversa sobre as tradições da comunidade, finalmente chegamos ao tema, as sementes. Oportunidade para propor a feira de troca de sementes e momento em que Zé Pedro nos abre o portal do Quilombo Picinguaba, aceitando nossa proposta e estadia, indica os nomes de Dona Carmem (cozinheira) e Cirilo (o plantador).
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Dona Carmem guarda as chaves da escola onde pretendíamos dormir, a principio desconfiada, mas só até nossa seguinte visita trazendo variedades de milho que nos comentou que buscava, a partir de então nos abre sua casa para acampar e cozinhar, ali passaríamos horas conversando com sua mãe Maria sobre alimentação, plantas, cobras, índios e as viagens de seu falecido marido.
O Cirilo nós vimos rápido passar com a enxada e a cara fechada. Sobre Cirilo escutamos que cedo pela manhã já está na roça, que em sua terra havia feito um grande plantio utilizando o sistema de agrofloresta e que seria ele quem mais fascinado ficaria com as sementes diferentes de milho.
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A comunidade já não planta como antes, muitos trabalham na cidade, outros tem sua renda através do turismo, mas a feira de troca de sementes que montamos na Casa de Farinha atraiu aos mais resistentes plantadores.
Zé Pedro há anos buscava o milho cayano branco, a variedade melhor adaptada àquelas terras e tradicionalmente utilizado pela comunidade para fazer o fubá. Como todos na comunidade já haviam “perdido esta planta”, fica feliz com a variedade crioula que trouxemos do sul de MG, assim o guardião da Casa de Farinha se compromete agora em plantar e multiplicar como novo guardião deste milho.
Mariazinha ficou animada com a variedade de abóboras que trouxemos e decidiu levar um tantinho de cada para experimentar em sua horta onde pretende identificar cada uma para ver qual melhor se adapta na região.
Ginacil, o jovem que transpira esperança e criatividade, é um dos artesãos que produz pulseiras, colares, cestos, instrumentos e diversos outros inventos. Antes pescador, hoje plantador, ao ver tanta semente, resgata seu sonho de criar um jardim de frutíferas em sua terra e curioso quer saber detalhes de cada semente (para ele exótica) que leva para se tornar guardião.

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Feliciano, a exemplo de seu irmão Cirilo, tinha planos para fazer agrofloresta em seu terreno e selecionou uma variedade grande com espécies de todos os ciclos, extratos e famílias.
Cirilo… Bom, Cirilo não apareceu na feira. Na manhã deste dia procuramos sua casa (…fica lá do outro lado do rio, depois do campinho, pela trilha cruzando a ponte, diziam) para o convidar pessoalmente para a feira de sementes, mas sua esposa que nos recebeu, informou que ele estava na cidade para exames médicos e só voltaria à noite.
No dia seguinte, cedo antes de partir, nossa missão clara e decidida foi uma visita a este guerreiro da terra para oferecer as sementes e conhecer sua roça.

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Roça? Roça, horta, jardim, floresta, capoiera, pindorama… Ao aproximar-nos da terra de Cirilo já podíamos sentir que a temperatura era outra. De repente aquele calor sufocante e sol ardente desaparecia dando lugar a um micro-clima fresco e agradável.
Juntos selecionamos milhos, feijões, hortaliças e árvores para colocar em sua terra… claro que graças a seu trabalho diário já estava fértil e preparada. Em troca recebemos mudas de cupuaçú, cambuci, cabeludinha e sementes de seu milho sabiamente selecionado (pra plantar… só os grãos do meio, diz ele).
O passeio pelo sitio de Cirilo nos revela uma incrível área de agrofloresta de 4 anos, onde tudo já cumpriu seu ciclo e deu lugar a uma floresta de frutíferas das mais variadas, tudo em consórcio com bananeiras. O plantador, que recebeu sementes de cambuci para integrar em seu SAF, iniciativa do instituto IPEMA, gostou tanto da produtividade e abundância desta fruta que resolveu fazer um pomar de mais de 100 árvores para produção de polpa, hoje já produzindo, e claro, tudo consorciado com banana, jussara, inhame e pupunha.
Cirilo confessa que adorou a técnica de SAF, mas deixa claro que não abre mão do plantío tradicional de mandioca, milho e feijão que continua plantando em sua roça do outro lado do rio, onde não só respeita a distância da mata ciliar, como ele próprio vem fazendo o reflorestamento.

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Alegria em ver que nossa visita reviveu intenções de recuperar plantas tradicionais, consciência da importância da autonomia e a curiosidade de plantar novas espécies.

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