O escritório de um guardião de sementes e a seleção do milho crioulo

Depois de uma colheita abundante, a partir de umas poucas sementes destas bem antigas de milho de pipoca, vem um delicado e satisfatório trabalho de observação e seleção, mostrando que o escritório de um guardião de sementes pode ser bastante intricado.

Em um de nossos encontros de troca de sementes tivemos a oportunidade de receber um punhado do milho de pipoca crioulo preservado por agricultores da região da Lapa, PR. A variedade, cuja mescla de cores era uma das características preservadas pelo guardião, nos chamou atenção para uma experiência: entre grãos vermelhos, pretos, roxos, amarelos, laranjas e dourados de variados tamanhos, separamos cuidadosamente apenas as sementes maiores e de cor preta, afim de comprovar a variabilidade genética deste exemplar. Sabemos que esta variabilidade é a riqueza de uma semente crioula tradicional e marca sua possibilidade de variar e retornar características, assim como preserva sua capacidade de adaptação e resistência às mudanças climaticas e intervenções naturais. Isto somente é possível com gerações de plantio, replantio, misturas no cruzamento e seleção de características; inestimável trabalho dos guardiões de sementes que vem sendo praticado ha mais de 9 mil anos e que ainda muitos desconhecem. Aliás, hoje com tais manipulacoes genéticas de “melhoramento” para fins comerciais, estas sementes são desvalorizadas ou até condenadas por sua rusticidade e despadronização de características impostas pelo mercado.

“Maiz” peruano
A mistura original do guardião

Enfim, sabendo tudo isso, levamos a campo nossa expêriencia. Semeamos apenas os grãos pretos selecionados para observar logo que características e cores esta semente pode nos retornar de sua memória. Fosse esta uma semente híbrida “melhorada”, onde os gens são isolados, devolveria apenas espigas com grãos pretos, todas praticamente do mesmo tamanho (obviamente, se utilizássemos corretamente o pacote de adubos e pesticidas recomendado pelo fabricante, do contrário, não acreditamos que nem uma colheita de boas espigas teríamos).
Ah, para seguir o teste de poder de nossa cobaia, ainda adicionamos uma nova variável tornando a posterior seleção ainda mais complicada e a prova de resistência deste milho mais desafiadora, então semeamos próximo a ele uma variedade de “maiz” peruano, das altas montanhas do Vale Sagrado. Hummm… vai que dá bom. Pela lógica genética, se nosso criolinho do Paraná, que já se mostra um durão para o frio, neste novo cruzamento não alterar suas características de pipoca, forma e cor (ou cores, veremos), ainda pode ganhar um precioso gen dos parentes andinos que venha a suportar temperaturas ainda mais baixas.

Chegou o momento, e debaixo daquela palha teríamos surpresas, no mínimo interessantes. Foram aproximadamente 50 plantas de 50 sementes, mostrando a que veio já desde a germinação, ou seja, nenhuma falhou. E assim nos rendeu 70 espigas, que se desenvolveram muito bem, mesmo sendo atormentadas e sufocadas por algumas variedades de feijões trepadores, os quais descuidamos em misturar no consórcio. Enfim, outro ótimo teste de resistência para nosso guerreiro.

Recordando que recebemos do guardião as sementes de milho de pipoca, de variadas cores, daquelas espigas finas e bem pontiagudas, plantamos somente da cor preta, selecionando entre todas, as maiores e claro, sempre finas e pontiagudas. Começamos a colher e abrir a palha e eis nossa comprovação: grãos vermelhos, amarelos, laranjas, pretos, muito pretos, dourados, misturados, grandes, pequenos, pontiagudos, redondos (ops… sabemos que esta característica de forma não é comum nos milhos de pipoca crioula) e algumas espigas bem maiores (também incomum nesta variedade), o que nos mostra também que alguém andou pulando a cerca da cordilheira na hora da copula.

Antes mesmo de iniciar nossa análise já observamos a riqueza genética contida numa única semente com a dominância preta, que pode nos retornar novamente todas as cores das sementes anteriormente misturadas pelo guardião. Como a seleção de uma característica específica ou a variação dela pode levar anos de cruzamentos e seleção, isso nos prova que esta semente tem umas tantas gerações sendo preservada com carinho e enriquecendo sua genética.

Num trabalho mais minucioso estivemos selecionando entre as mais bem desenvolvidas, com as variadas cores, todas no formato de espiga fina e grão pontiagudo, característica comum aos milhos de pipoca crioulo. Bem, estas seriam nossas “avozinhas” que recuperamos da genética tradicional de nosso doador, além disso, deixamos gravado um pouco da nossa historia de seleção, e com sorte podemos ter agregado aquele “poncho” peruano, característica que só conheceremos na próxima geada.

Logo vem a parte difícil. Toda aquela mistura vinda do cruzamento inter-latino. Tem espigas finas com grãos redondos, grandes com grãos pontiagudos, grandes com grãos redondos, coloridas misturadas, enfim para estas espigas acreditamos que se manteve mais forte a genética do milho peruano. Agora para aproveitar estes novos descendentes só nos resta um teste a fazer: de pipocabilidade. Ou seja, debulhar e estourar na panela, por separadado cada variedade manifestada diferente dos originais e com nova característica que nos interesse preservar, assim veremos se ainda temos milhos de pipoca, desta vez com novas formas e tamanhos.

Com esperado, nossos testes mostram alguns fracassos na pipocabilidade, mas também sucesso na “criação” de um novo formato para o milho de pipoca, no caso de duas espigas grandes com grãos arredondados, amarelos e manchados brilhantes.

Ficamos com algumas misturas interessantes que ainda fazem pipoca, mas também perdemos este gen em outras que descartamos. Por sorte nossas espigas selecionadas com características das originais mantiveram a pipocabilidade no testes.

Experiência que recomendo aos plantadores mais atrevidos, não somente para o milho de pipoca mas também para outras varidades e espécies. Como exemplo temos um guardião em Planaltina, DF que foi atento em produzir novas sementes a partir de um punhadinho de uma variedade de alface que supostamente se definia como “4 estações”, e de ali até sua terceira geração pode observar e selecionar mais 5 diferentes variedades em seus cruzamentos, graças a grande variabilidade genética da matriz crioula que lhe doamos.

Aguardamos as próximas colheitas!