Casas subterrâneas do povo Kaingang

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Os kaingang, uma das 305 atuais etnias do Brasil, já habitavam o Planalto Meridional Brasileiro três mil anos antes da chegada dos europeus. Estes povos eram conhecidos como Proto-Kaingang, povos da Tradição Taquara ou Povo das Casas Subterrâneas.

Screen Shot 2016-03-21 at 2.49.01 PMA arqueologia do sul do Brasil tem dado atenção, desde a década de 60, a um tipo muito especial de antiga ocupação humana encontrada em muitos pontos de planalto nos estados de São Paulo, Paraná e, principalmente, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de alguns achados semelhantes próximos ao litoral, no sul de Santa Catarina.

Para se proteger do inverno rigoroso que castiga as elevadas regiões do Sul do Brasil, chamados Campos de Cima da Serra, construíam suas casas de forma enterrada, mantendo-as, assim, protegidas dos ventos fortes e gelados que cortam o planalto.

img4Por vezes, as paredes eram compactadas com argila mais fina, resultando em uma camada de revestimento. O teto era apoiado sobre estacas: uma estaca principal no centro, que descia até o chão da casa, e estacas laterais, que irradiavam do mastro central e se apoiavam na superfície do solo, na parte externa. Este teto ficava pouco acima do nível do terreno, garantindo ventilação, iluminação e trânsito.

Screen Shot 2016-02-18 at 9.46.07 PMTrata-se de verdadeiras casas circulares, escavadas na terra: em alguns casos, em

rocha basáltica, em outros, em basalto composto ou rocha mole de arenito. Suas dimensões são variáveis; os registros mais importantes revelam estruturas com tamanhos médios entre 2 e 13 metros de diâmetro com profundidade média de 2,5 a 5 metros de altura, havendo casos registrados de 4 e até 6 metros de profundidade. Segundo a descrição de vários pesquisadores, com base nas casas melhor conservadas, sobre a cova circular que delimitava a casa, erguia-se uma cobertura de folhas sustentada em uma armação de madeira, em parte fixada na base da casa, e em parte fixada nas bordas laterais da cova, inclusive com o auxílio de pedras.

Em algumas casas os arqueólogos mencionam ter encontrado um revestimento de piso e, em outras, revestimento em pedra nas paredes ou parte delas.
Ainda que, em um número significativo de sítios arqueológicos se encontrem casas subterrâneas isoladas, é comum encontrar-se conjuntos dessas casas, seja formando
pares, seja formando verdadeiras aldeias de mais de 5 casas, sendo vários os

agrupamentos entre 8 e 10 delas, e havendo, mesmo, casos de mais de 20 casas em um mesmo lugar. O espaçamento entre essas casas varia de 1 a 10 metros, em média.

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Ainda que alguns arqueólogos tenham sugerido que as casas subterrâneas não teriam sido, de fato, casas de habitação, mas apenas centros cerimoniais, a posição mais comum e sustentável indica que realmente essas estruturas eram a residências dos grupos humanos que as construíram. O arqueólogo André Prous também descarta a hipótese de que as casas maiores fossem apenas centros cerimoniais, enquanto as menores seriam de moradia, uma vez que, com freqüência, as casas maiores ocorrem isoladas ou estão presentes justamente nos menores conjuntos de casas subterrâneas.
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É importante, porém, observar-se a época em que as casas subterrâneas foram construídas e habitadas, para pensarmos na relação delas com outras formas de habitação antigas dos Kaingang. A arqueologia brasileira tem relacionado as casas subterrâneas com o que convencionou chamar de “tradição Taquara-Itararé”. Segundo Prous, para essa tradição “até há pouco, as datações mais antigas eram

exclusivamente do Rio Grande do Sul, entre o primeiro e o sexto século de nossa era.

Várias outras obtidas para o mesmo estado, Argentina e Paraná eram do século XIV, e duas do início do período histórico. Recentemente, datações de 475 AD (fase Candoi) e 500 AD na Argentina vieram mostrar que a cultura das casas subterrâneas desenvolveu-se em diversas regiões, grosso modo, na mesma época, e não se pode descartar a possibilidade de aparecerem, com as novas pesquisas, datações tão antigas quanto a, isolada por enquanto, de 140 AD para a fase Guatambu, cujo término foi datado de 1790 AD”.

44 pensamentos em “Casas subterrâneas do povo Kaingang

    1. Concordo contigo, frio e umido morar embaixo da terra?
      buscaram belezas para arrumar motivos para desapropriar ou expropriar terras produtivas, coisas de quem nada fez e hoje procura espaço na mídia…

      1. Provavelmente estas construções eram feitas em locais altos onde o teor de umidade da terra é menor, até mesmo para que não houvesse inundação nas habitações. A inércia térmica do solo mantem temperatura mais estável em relação a temperatura externa, desta forma é fresca no verão e quente no inverno.

        1. O solo tem efeito térmico
          E gera uma temperatura constante
          Verão/inverno

          Também acredito q eles tenham resolvido
          A questão da chuva

          1. Sim, Cleusa, você tem razão; trata-se da inércia térmica. Também a forma côncava faz preservar o calor gerado por uma fogueira no centro do espaço que deveria ficar acesa no tempo mais frio. A cobertura de palha deixa sair (o ar quente sobe) facilmente a fumaça gerada abaixo, tornando o ar mais quente e sem poluição do ar. Maravilhosa criação de arquitetura bioclimática!

    2. Pois é, mas repare no comentário do revestimento de argila. Argila é um impermeabilizante, há regiões baixas onde a água empoça, e tem sido usada para segurar a água em barragens

    3. Deveria ser mantido um fogo aceso no centro e pela forma cÕ
      ncava o calor é mais conservado, parecido com o princípio do iglu.

  1. Parabéns pela pesquisa, existe muita informação debaixo da terra. Mas precisamos tomar cuidado ao associar as casas subterrâneas construídas pelos kaingang com as galerias da megafauna quaternária. A figura mostra galerias entre as casas subterrâneas. A maioria das galerias são paleotocas de tatus e de preguiças gigantes, muito abundantes no norte do RS e sul de SC.

    1. Lembrei exatamente disto, pois conheço uma pequena região, no município de Vacaria – RS, onde existiam (eu vi) e ainda devem existir estes “buracos”, uns diziam que eram dos bugres, meu pai com mais cultura dizia que também poderiam ser de preguiças gigantes

  2. Como diz na matéria, ele revestiam as paredes com uma fina camada de argila. Provavelmente com uma fogueira la dentro, o calor era refletido por todo o interior através do aquecimento desse revestimento.

  3. Ae num exprica mas o animal de estimação desse povo era o Tamanduá….Pois comia as formigas e minhocas abundantes no interior das malocas submersas na terra rsrss

  4. A sabedoria do ser humano para resolver seu habitat foi esquecida em algumas soluções da “arquitetura” atual ao construírem estufas de vidros em climas quentes…
    ao enterrarem as construções tiram partido da inércia térmica da terra, não permitindo que as grandes oscilações do clima externo se faça sentir internamente; no caso de muito frio, soma-se a proteção contra o vento e já se cria um ambiente habitável.

    1. Concordo plenamente, Rosana! Espero que, futuramente, saibamos valorizar os saberes e a técnica de quem chegou aqui há muito tempo e, não sendo ignorante a ponto de simplesmente importar inteligência, soube criar tudo a partir da observação e adaptação, consciente ou não, do clima tropical.

    1. Eu utilizei 2760 pedras lousa(ardósia) principalmente para o piso térreo com 200m°do que chamo “Kleinburg” . No verão é absolutamente desnecessário o uso do condicionado e no inverno é confiável sem nenhuma calefação.Sta. Catarina.

  5. Y ahora los arquitectos se vanaglorian con sus obras ja, ni con la tecnología actual se les igualan a los pueblos originarios …en su mayoría se estudia de los legados ancestrales… Nada nuevo hoy ,solo mejorado

    1. Parabéns excelente teor. A escolha pelos platos mais elevados, livre de inundações, estava presente entre os povos, muitas cidades foram construídas sobre o mesmo solo o que impediu a melhor compreensão sobre esses assentamos no estado do Paraná. A região Noroeste era territórios dos Xeta que preservaram o uso de instrumentos de pedra lascada com habitações provisórias. O grupo foi estudado por uma equipe de antropólogos da Universidade Federal do Paraná, entre 1956 e 1961. Os hábitos sociais e técnicas de caça podem possuir relações com sua pesquisa. PARABÉNS

  6. Parabéns Multiplica !!! Assunto interessantíssimo, quero fazer uma experiência de construção com este modelo muito em breve. Se houver interessados com conheçam mais detalhes sobre a execução e queiram participar, resido no norte do PR e já fica o convite.

    1. Se houver mutirão para a execução da mesma, ficaria honrada em participar, pois gostaria de também aprender o processo construtivo..

  7. Nossa devem que era bem ruim quando chovia pois depois a casa deles ficavam toda suja de barro, sem contar que se fosse bem forte a casa ficava coberta de água…

  8. nas minhas incursões por temas variados, associando escassas noções de física quântica –
    com o formato das casas circulares, recorrente em civilizações muito, muito antigas, ao que a arqueologia tem mostrado – se dá um fluxo igual da energia telúrica e mesmo a energia quântica, até a gerada pelo próprio ser humano. tenho um projeto, que não sei se enfim realizarei, de construir uma casa campestre, circular, em barro, palha e estacas de madeira, pois peno muito com o custo da energia elétrica cá no oeste no rio grande do sul, onde sobretudo os verões são senegaleses. amei demais a matéria

  9. eram feitas na mata de araucária e habitadas no inverno, quando os animais também ficam mais tempo no mato comendo pinhão o que facilita a caça. no verão os índios desciam a serra do mar indo para as lagoas onde aproveitavam a piracema.

  10. Estou muito feliz com a matéria, e muito mais ainda com os comentários, nunca tinha visto comentários tão pertinentes sobre um assunto com esses.
    Sou ceramista e fui presidente de uma associação nacional de cerâmicas, Anicer. Coloco isso pq sempre que participo de reuniões com entidades governamentais e mesmo as instituições que representam a construção civil, sempre falo da necessidade de olharmos o que nossos antepassados já faziam para melhorar as habitações, o quanto algumas técnicas construtivas são eficientes até hoje, alguns materiais são usados a milhares de ano, logicamente se adaptando as condições e necessidades de cada cultura e cada clima. É sem nenhuma conotação político partidária ou ideológica, o que nossos governantes tem feito em relação a construção de moradia popular, é absurda! Trocamos técnicas, produtos e conhecimentos reconhecidamente eficientes, por técnicas e produtos inadequados para nossas condições climáticas, principalmente quando se trata em repetir milhões de vezes o mesmo processo em todas as regiões. Acho que precisosamo parar de importar tecnologia de Fora, ainda mais tendo tantas diferenças deles, clima, cultura, infra estrutura, condições de manutenção e principalmente quantidade, não dá para fazermos experiências com modelos e processos, precisamos estar muito seguros em ter o melhor é mais testado processo, nosso erro certamente vai prejudicar milhões de pessoas nesse continente Brasil. Temos que separar os interesses comerciais das necessidades básicas das pessoas, e não em atender interesses industriais ou de espécie duvidosa na liberação dos contratos.
    Desculpem pelo textão, me empolguei com o que vi aqui, se tiverem oportunidade entrem na página: http://www.anicer.com.br, lá existe um trabalho pioneiro muito interessante de Análise do Ciclo de Vida que fizemos com uma empresa canadense chamada Quantis.

  11. Quando eu era criança,,43 anos atrás, meu pai comprou terras no município de São Marcos RS e tinha esses buracos redondos e eu perguntava à ele o que era e ele me contava histórias falando sobre serem as ocas dos índios que vivia alí. Agora consigo entender um pouco mais e acredito que eram verdades aquelas histórias.

    1. Suponho que na parte mais alta faziam uma vala para a água não chegar até a habitação, e deveria ter caimento em torno para a água escorrer. Dessa forma ela permaneceria seca! Alguém concorda?

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