Uma aldeia para o futuro, resgate da agricultura tradicional

As comunidades tradicionais só resistem na sociedade, fortalecendo sua tradição. Um povo é sua cultura.

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Multiplica! e Raiz das Imagens – Aldeia Kalipety, Parelheiros, SP

6º Banco de Multiplicação de Sementes

IMG_2678O nome da aldeia, Kalipety. Na lingua Guarani, “ty” significa ‘muito de alguma coisa’, e “kalipe” é como chamam o eucalipto. Este foi o cultivo que o povo Guarani Mbyá na região de Parelheiros, SP, herdou na retomada de seu território, e realmente é algo que se encontra em grande quantidade nestas terras.
O eucalipto não faz parte da cultura Guarani, nem mesmo deste bioma, mas desde que iniciaram esta aldeia nova, localizada dentro da TI Tenondé-Porã, o povo indígena agradece esta árvore que vem sendo usada com sabedoria para a construção das novas casas. Assim, conhecendo a problemática de degradação causada ao solo devido uma grande quantidade desta cultura, uma consciente retirada de eucaliptos vem dando lugar nas matas ao reflorestamento de árvores nativas da Mata Atlântica além de algumas espécies frutíferas. Portanto é importante lembrar que não existe planta “má”, o grande problema é a forma que domesticamos e o desequilíbrio que causamos com isso.

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Uma liderança mulher, jovem e preocupada com a educação

MVI_2491000Com uma incrível consciência ambiental e foco na importância em fortalecer a tradição Guarani, há dois anos, a jovem liderança e educadora Jera Giselda decidiu que deixaria a aldeia onde nasceu, Tenondé Porã, para encontrar o lugar ideal para firmar um trabalho de resgate cultural e garantir a autonomia de seu povo. A antiga Tenondé Porã, já foi um lugar com forte desempenho da agricultura tradicional no início da comunidade que já tem mais de 40 anos. Hoje muito mudou e a população da aldeia cresceu, no entanto a terra demarcada continua a mesma, o que tornou quase impraticável o plantio até mesmo para subsistência.

DSC_0202Certo dia, visitando o velho Antônio, parente da aldeia Rio Silveira no litoral Sul, Jera recebeu das mãos deste guardião uma batata-doce que garantiu ser tradicional do seu povo, chamada “jety-karau guaxu”, e junto a missão de plantá-la e preservá-la. Em pouco tempo seu pequeno quintal em Tenondé exibia já as ramas e folhas da “jety miri” (batata sagrada), como carinhosamente era chamada pela nova guardiã, e não demorou até aparecer em suas mãos diferentes variedades de batata-doce de outros guardiões desta aldeia e outros lugares do Brasil. Foi assim que Jera percebeu que sua missão seria descobrir e resgatar todas as tradicionais batatas-doce do povo Guarani, seu quintal ficou pequeno, e com isso chegava o momento de mudar para um lugar onde tivesse muito mais espaço para esta multiplicação.

Parceria pela tradição e biodiversidade

DSC_0245Resistência! No município de São Paulo, a terra indígena Guarani, com 15.969 hectares identificados em 1983, apenas 26 hectares da Aldeia Tendondé-Porã foram homologados e demarcados. Nesta delicada situação, começou este incrível trabalho na Aldeia Kalipety, na luta pela autonomia, praticada através do resgate da agricultura Guaraní. Entre o milho tradicional (Avaxi), a Mandioca (Manji’o) se destacou o plantio da batata sagrada (Jety Miri). Em apenas dois anos, trazidas de feiras de sementes, velhos guardiões ou mesmo por cruzamentos, Jera já possui 6 variedades sendo multiplicadas. E foi através desta resistência cultural e pela soberania alimentar que a parceria entre Multiplica! e Raiz das Imagens chegou até este lugar.

IMG_2733Giselda, como é chamada em seu nome “jurua” (não-indígena), bastante conhecida pelo carisma e influência como liderança formadora de opinião na luta pelos direitos indígenas, é frequentemente buscada por jovens estudantes e pesquisadores para entrevistas. Também conhecida por vídeos onde demonstra ser uma incrível oradora, expressando-se não só em Guarani, mas perfeitamente em Português. Assim encontramos Jera, que ficou muito animada com nossa simples proposta. Oferecemos apoio para um grande mutirão na criação de um espaço na aldeia para um berço de multiplicação das sementes tradicionais e crioulas, além de uma feira de sementes para levar novas variedades e ampliar a diversidade de alimentos cultivados. Quase sem pensar, a guerreira e plantadora respondeu: Sim, precisamos muito!

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Entre as 20 famílias que vivem na aldeia, muitos tem a abertura para acrescentar novos alimentos em sua dieta, garantindo assim uma possível autonomia em uma realidade de grande dependência de mercado. Esta é a revolução agroecológica que vem se formando entre as comunidades indígenas conscientes na luta por uma integração cultural saudável e harmônica, sabendo aproveitar e aceitar apenas o que é bom na cultura do não-indígena. Desta forma, plantando e incluindo mais cultivares, como a cenoura, o arroz integral e o gergelim, por exemplo, é bem provável que logo menos açúcar, farinha branca e óleo precisará ser comprado.

MVI_2250Foram 10 dias de intenso trabalho na terra, troca de conhecimentos e reflexões sobre o resgate da cultura Guarani. Como atividade de força maior, organizamos juntos em meio a este período de mão-na-massa, uma vivência de 4 dias, integrando as aldeias Tenondé-Porã, Kurukutu, Kalipety e agricultores da região de Parelheiros, além de alguns especiais convidados “juruas” vindos São Paulo para participar nos mutirões.

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IMG_2290A proposta feita pelo Multiplica! foi aceita e desenvolvida junto à comunidade para a implementação de um espaço integrado com um banco de multiplicação de sementes (novos cultivares) na terra, uma área de produção para as culturas tradicionais como a batata e o milho, uma linha de SAF com banana e mamão em círculos de bananeira e uma zona de adubação verde para manejo e incorporação nos canteiros, além de uma composteira/minhocário no centro. A todo este sistema chamamos “Berço de Abundância”.

IMG_2035Em meio a uma área onde as matas apresentam um solo ácido e árido por conta das quase monoculturas de eucalipto firmadas há alguns anos, não há outra saída que não seja primeiramente “plantar solo”. Este foi o desafio no trabalho de agricultura regenerativa, empregando 3 diferentes técnicas baseadas no sistema agroflorestal e biointensivo.

MVI_2218Contando com os supostos “inimigos” como maiores aliados, os próprios eucaliptos foram utilizados na maior parte da biomassa e adubação verde e o restante da matéria orgânica entre podas de nativas e folhas das matas, além de um empurrãozinho de crotalárias e gramíneas que já haviam plantado no local há alguns meses para início de recuperação do solo. Tudo isso não podia deixar de ser oferecido para decomposição aos nossos queridos microorganismos eficientes que foram coletados na própria mata da aldeia próxima a um córrego saudável.

A memória dos mais velhos é o único livro

MVI_2466Como parte deste processo, não poderia faltar o compartilhamento de conhecimentos do plantio e colheita da batata-doce, onde Jera orgulhosa mostrou aos “juruas” tudo que aprendeu com seu mestre plantador Pedro Vicente, que também esteve presente para observar novas técnicas e brindar-nos com algumas sábias palavras. O ilustre plantador se dirige principalmente aos jovens indígenas, lembrando e lamentando que atualmente estão perdendo o interesse pela agricultura tradicional e pela cultura Guarani em geral, o que traz a tona sua principal preocupação: “E quando os velhos como eu não estiverem mais aqui, quem vai continuar nossa tradição?”
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DSC_0089E na celebração da feira de sementes, como forma de retribuir o fruto da sabedoria do velho Pedro e de outros guardiões que lhe estiveram ensinando, Jera Giselda compartilhou com todos em um grande almoço uma parte de sua primeira grande colheita da valiosa (e deliciosa) batata-roxa (jety-karaũ).

Clip0106Para valorizar e incentivar este lindo resgate do alimento tradicional, o Raiz das Imagens esteve acompanhando e registrando em parceria com alguns jovens da aldeia que se interessaram pela câmera e nos enriquecem assim com sua visão dos plantios, colheitas e descobertas destas batata-doce em um pequeno vídeo retrato audiovisual para compartilhar e motivar outras comunidades, além de divulgar a riqueza desta cultura.

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Assim foi a vivência, entre 4 dias de mutirão com diversas participações e outros 6 dias de
trabalho na preparação e finalização do berço que contou com a dedicação dos moradores da aldeia, Evandro, Jera, Aline, Kátia, Pedrinho, Verá, Tiago, Zé, e vários outros não menos importantes.

DSC_0107Também foram realizadas outras atividades como a Feira de troca de sementes, brincadeiras com as crianças no tecido acrobático, descobrindo milhares de funções, pintura com tintas naturais, projeções de filmes de agroecologia e vídeos de outros povos, além de algumas noites de reza, cantos e dança na “Opy” (casa de reza). A união e comunhão sempre presente na casa grande da aldeia, onde todos os dias nos reunimos e realizamos as refeições, compartilhando o alimento e as receitas guarani e “jurua”, sempre em cooperação e harmonia, se destacaram o “Xipá” (pão tradicional, adaptado da mandioca à farinha e frito), o Bodiapé (mesma receita feita diretamente na brasa) e muita, muita batata-doce roxa.

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Algumas das variedades de batata-doce tradicional do povo Guarani (marcadas as que foram identificadas pelo guardião Pedro Vicente como ainda presentes na região e algumas já resgatadas na aldeia Kalipety):
jety-andai – Certa batata-doce amarela por dentro e vermelha por fora, com sabor de abóbora
jety-apiju – Certa batata-doce
jety-ava – Certa batata-doce branca por dentro e vermelha por fora, não muito doce, se não deixá-la ao sol por vários dias
jety-aypi – Certa batata-doce cuja casca contém manchas escuras, e que é branca por dentro
jety ju – Certa batata-doce amarela por dentro e vermelha por fora
jety-kara – Certa batata-doce
jety-kara’i – Certa batata-doce semelhante à última referida, mas menor
jety-karaũ – Certa batata-doce preta por dentro e por fora
jety-karau guaxu
jety-mbyku ra’yĩ – Certa batata-doce vermelha, bem pequena; batatinha-de-gambá
jety-piary – Certa batata-doce não muito doce, de cor bege por dentro
jety pire pytã va’e – Certa batata-doce com casca roxa
jety pytã – Certa batata-doce com manchas roxas por dentro e por fora
jety-raxi, jety-raxy – Certa batata-doce
jety-remborike – Certa batata-doce
jety xiĩ guaxu – Certa batata-doce branca por fora e por dentro
jety xiĩ’i – Certa batata-doce semelhante à última referida, mas menor

DSC_0077Em conversa com Jera, nos declara que tem um sonho para esta aldeia. Que se torne um modelo de referência nas sementes tradicionais e crioulas, onde todos possam vir recuperar e levar sementes multiplicadas com muito carinho. Um berço de batatas, milho, mandioca, e todos os alimentos que os guardiões vieram trazendo desde sempre como viajantes do tempo. Uma aldeia rica de vida e aberta à diversidade, onde a base do trabalho seja a agricultura e que estes resultados possam trazer uma verdadeira autonomia algum dia.

DSC_0224-4Trazemos da aldeia Kalipety muito conhecimento e a inspiração de um povo extremamente alegre e divertido, que trabalha duro enquanto conta piadas, consagrando seu inseparável “pety’guá” (cachimbo sagrado). Deixamos um pouco da experiência que adquirimos com outros guardiões tão importantes de outros lugares. Ali na terra e dentro de cada um que participou fica plantada mais uma semente da integração pela sociobiodiversidade.

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